Há muito tempo atrás assisti a um filme chamado “O óleo de Lorenzo”, um bom enredo e excelentes atores, porém tratava-se da história verídica de um homem que vê seu filho retrocedendo em seu desenvolvimento devido a uma disfunção genética e não se conhecia uma forma de frear esta degeneração.
Neste filme, o pai, torna-se o pesquisador da doença do filho, e mesmo no meio de tantos problemas com a saúde debilitada do mesmo, consegue estudar uma maneira de estagnar a degeneração, porém, ele só consegue fazer isso, quando seu filho já está num estágio bem avançado, e mesmo assim, ele termina sua pesquisa e a divide com a comunidade.
Lembrei-me deste filme neste momento, onde eu passava mais um dia tentando explicar o inexplicável, estava envolta aos pensamentos sobre a essência de minha submissão.
Quero que este texto possa um dia ajudar a algum SER a entender-se com a sua submissão antes mesmo de perder aquilo que mais ama que é seu DONO.
Iniciei-me tardiamente na vida sexual, pouca experiência, cheia de tabus, e medos, muitos desejos reprimidos, fechada e reservadíssima.
Com uma inteligência acima da média que fazia me destacar em alguns setores, porém, em outros eu não tinha melindres para lidar com determinados assuntos.
Minha competitividade sempre muito baixa, fazia com que eu sempre olhasse para os oponentes com medo, e me posicionava abaixo do que realmente deveria estar, veja não era baixa estima e sim elevação do oponente.
Apesar de ter consciência do quanto poderia me destacar o medo de perder impulsionava-me para a desistência antes mesmo de iniciar; muito parecido com uma síndrome estudada pela psicologia onde a pessoa que tem medo de altura ao perceber que está num lugar muito alto sofre com o medo e num impulso desmedido pode se jogar.
Neste meio de anseios e situações, conheci o BDSM, este mundo intenso, cheio de cheiros, sensações e gostos, este mundo repleto de emoções e sentidos, um mundo onde as fantasias poderiam aparecer sem se tornarem bizarras, ou seja, acabara de achar meu nicho.
Em meio à vontade e da excelente condução que tive, fui destruindo meus mitos e tabus, coisas que doíam na alma, situações que me rasgavam por dentro, e em um palco mágico, eu me conheci como Mulher.
Num gesto minha guarda foi abaixada permitindo a entrada do COMANDANTE, ao presentear-me com uma lingerie branca mostrou-me os seus desejos, os meus e mais, mostrou-me que estes desejos eram lindos de serem vividos, e com a primeira ordem deferida a mim, estendi a mão de olhos fechados para receber o presente, apenas fechei os olhos e estendi a mão.
De fato foi um pequeno gesto que tirou anos de muralhas, que me fez esquecer experiências ruins. Uma ordem e tudo foi esquecido.
Estendi minha mão de olhos fechados e recebi aquela mão sob e sobre a minha num gesto que fez eu me sentir segura e muito protegida.
Iniciava-se ali, minha vida.
Minha essência de submissa ficou adormecida por muito tempo, a primeira vez que me prostrei para uma inspeção, sentia meu corpo todo se retesar e a recusa vinha forte, e já nua, ouvi aquela voz dizendo; “Se não quiser, não faremos nada, ficaremos aqui somente abraçados”.
Por aquela frase fui levada por uma sensação que não mais deixei de sentir ao longo das sessões que tivemos durante um bom tempo. Um bom e maravilhoso tempo.
Cada sessão um avanço, uma nova sensação, e claro uma nova mulher saía de dentro do casulo e ocupava o corpo da antiga, uma verdadeira metamorfose.
O grande primeiro problema vivido foi quando, no meio do contrato, eu me deparei com um sentimento que eu não conhecia, passei anos de minha vida acreditando que apaixonar-se era uma coisa e de repente, eu me via, em meio a algo que eu não conhecia, muito forte.
Eu havia me descoberto diferente, minha entrega já era necessária, eu sentia falta das sessões, eu sentia necessidade das ordens e da presença, e neste emaranhado de pensamentos, eu senti o cheiro forte da chuva dourada impregnando minha pele, pedi olhando nos olhos que só fizesse se soubesse e tivesse a noção do quanto àquilo era importante e o fez , declarava ali minha entrega: VERDADEIRO SENHOR E DONO de mim.
Na sessão seguinte, eu já fui pensando na chuva dourada, enquanto eu pensava sozinha, mil coisas passavam ao mesmo tempo pela minha cabeça, de tesão a nojo, mas ao sentir o aroma do seu perfume e beijar a mão do COMANDANTE, tudo isso era trocado por um desejo desesperado de sentir aquele lÍquido morno e forte escorrendo por minha pele, e mais, eu sentia sede, queria beber, e sobre mim derramou mais uma vez sua chuva dourada que banhou meu sexo, meu corpo, e respingava em minha boca e eu sorvia, absorvida aos meus instintos.
Levantei-me dali outra mulher, outra pessoa, meus pensamentos não eram mais os mesmo, eu não reconhecia o que pensava, e atrapalhada pelas emoções e atormentada pelos temores, tomada por emoções desconhecidas, fugi da situação e retirei o combinado, reincidi o contrato.
Impulso desesperado de quem não soube combinar a emoção com a razão, e quando consegui equilibrar as emoções, minha razão pediu por minha submissão, e ela já não era mais minha, eu havia me entregado plenamente e com muito medo, fugi de minha essência.
Não tive duvida, pedi, implorei para que me ouvisse e com toda a experiência adquirida fui corajosa para mostrar o medo que eu sentia e o desejo de continuar. Humildemente pedi perdão.
Permitiu-se mais uma vez minha aprendizagem, cada situação uma nova conquista, agora muito mais resistente à dor, os chicotes já lambiam minha pele, pedia pela técnica e ansiava pela chuva dourada que se tornou o símbolo do reconhecimento de minha entrega.
Recebi minha coleira, não tinha o nome do COMANDANTE, então em meio a um emaranhado de sentimentos atrapalhei-me novamente, a princípio e por proteção eu a vi como brinquedo, um erro mais que fatal numa submissa, pois a coleira quando entregue, colocada em seu pescoço, é sinal de reconhecimento e de admiração, não se tem coleira sem ter conquistado seu lugar como serva, e não tem como ser serva se não ter a entrega.
A lição da distância é a mais complicada, afastada devido ao movimento de meu mundo baunilha, e sem conseguir mais ficar sem a submissão, declarei guerra a mim, e me sabotei.
Não consegui aprender esta lição, esta é a mais difícil precisaria de mais tempo para aprender, talvez porque eu use isso como escudo, para não demonstrar o quanto posso ir mais longe e perceber que já não sou mais minha, pertenço plenamente.
Meu inimigo: eu.
Um inimigo forte, que sabe exatamente o que fazer para me destruí, e eu fiz isso, no meio de uma deliciosa calmaria e entrega, explodi com tudo, e entrei novamente num túnel sem volta.
As coisas caiam, e eu gritava e eu pedia, e eu atolava-me em lama ainda mais, e quando dei por mim, estava sendo tragada pelo buraco de minhas emoções.
Ensinamentos entendidos, mas este eu não conseguia controlar, a distancia fazia com que eu renegasse quem eu era, e a atitude tomada fazia com que ela a SUBMISSA viesse à tona, desesperada gritando para ser ouvida.
Muitas lições analisadas, muitas lições aprendidas, pedi e implorei uma nova chance, e sentindo os olhos de comando dentro dos meus dizendo: “Não vou permitir uma nova sabotagem, entendeu, uma nova sabotagem e será fatal para você, não te salvo mais.”
A dor daquele período fez-me enxergar que minha submissão tinha sobrenome sim, não aparecia, era discretamente moldado, e passei o melhor período de minha submissão, conseguia, mesmo que em prantos, falar daquilo que me machucava, e com meu rosto novamente nas mãos de quem em conduzia eu ouvi: “Não vai me perder, eu prometo!” conseguia, em prantos, me abrir cada vez mais, a submissão já havia tomando conta de mim, e eu havia passado a ser extensão de quem me criou.
Estava moldada a seus desejos, deixou de serem “seus” para serem “nossos” e a sincronia e a parceria haviam me moldado de forma tranquila, tanto que no auge de uma crise em minha vida profissional, consegui superar e impedir que isso afetasse minha entrega.
Mas, cometi outro erro fatal, deixei que aquele mundo se tornasse o único prazer e com isso, eu criei o vicio, e como já sabemos todo o vício nos consome, e nos machuca, e quando não temos o ingrediente necessário nos tornamos aquilo que não conhecemos.
Passei este período voltado a mim, havia um currículo oculto para eu aprender, e esta foi à próxima lição difícil, fui reprovada neste quesito, não reconheci o currículo oculto a tempo, não consegui a tempo ler os sinais discretos que me eram dados.
A entrega se tornava cada vez mais forte, eu já pensava em mudanças ainda mais drásticas, como:
• As marcas banhadas a sangue: a vontade de entregar-me sem o uso da safeword, possibilitando o COMANDO completo;
• O empréstimo direcionado: entender que meu empréstimo era necessário para o deleite de quem me tem, pois, só se empresta aquilo que é seu.
• Aceitar uma irmã de coleira era algo mais difícil, mas eu sabia que seria inevitável, era uma maneira de demonstrar a minha entrega acima de minhas vontades, pois a irmã de coleira seria uma aceitação para pleno prazer de quem me conduz.
Perturbada por problemas particulares e de cunho privado, viciada pelo prazer de cada sessão, eu não me dei conta que sobrecarregava a mão que me foi estendida e comecei a cobrar e exigir o que não se podia.
Voltada para mim, esqueci-me de verificar os quesitos do currículo oculto de minha aprendizagem e fiz disso a arma letal para este contrato.
Não pensei.
Esqueci que a submissão é atrelada a DOMINAÇÂO e com isso, ao mesmo tempo em que eu mudava minha submissão, a mutação ocorria também do lado da DOMINAÇÃO.
Não notei as mudanças drásticas que acontecia a cada sessão, estive absorvida em minhas vontades e como submissa pequei em não observar com olhos clínicos as mutações sofridas por quem me conduzia.
Com minhas crises, desconfortos e inquietudes eu produzi em quem me conduzia as mesmas sensações que eu tinha.
Se para a submissa é difícil entender que sente prazer doando-se em plenitude ao DOMINANTE, para este, tirar de dentro de si aqueles demônios que o levam a ter prazer, também é algo dolorido, dores diferentes de intensidades parecidas, mas são dores.
Como submissa, apesar de todos os avisos, não consegui enxergar que minhas crises e recusas criavam no DOMINANTE uma terrível sensação de erro e culpa, possibilitando que os escudos fossem levantados e uma onda de força e crueldade, tendência natural de quem DOMINA, é jogada sobre os envolvidos.
Uma crise desesperadora e desnecessária, uma vez que o submisso é o grande controlador desta tempestade, eu não controlei, eu desabei.
Fragilizada com minhas péssimas escolhas, e desencadeando uma onda de ataque, acabei por destruir algo que construímos com tantos cuidados e dedicação, anos deliciosos, bons e que eu desejo que fiquem intocáveis.
Minha essência de submissão grita dentro de mim, não mais consigo viver sem aquelas endorfinas, sem aquelas sensações entre perigo e proteção, sem aquela dicotomia que faz parte do meu SER.
Culpei ao DOMINANTE por dias, por não ter me dado à mão quando pedi.
Culpei-me, a submissa, por dias, por ter pedido de forma violenta a mão de quem avisou que naquele momento não poderia dar.
Não tem quem culpar.
Agora entendo que ambos foram levados pelos próprios escudos, e levados aos próprios erros, eu por não aprender o currículo oculto de ser submissa e o DOMINANTE por não ter percebido que eu não estava preparada para aprender com a técnica do TEMPO.
Submeter-se é dolorido.
Somos testados e repreendidos a cada instante.
DOMINAR é dolorido.
São o tempo todo cobrados por cada acontecimento da relação.
Um erro do submisso e, nosso DOMINANTE, se protege, e o pior, protege-se de si próprio, e a primeira coisa que faz é nos afastar.
Submeter-se exige técnica e muita dedicação, a necessidade de analisar sua relação D/s se torna necessária.
Não se foi dado conta que, sem querer, usamos algo que foi muito importante para o desenvolvimento da relação: num determinado período onde estamos muito sincronizados, parou-se para ter uma conversa sobre alguns pontos de divergência, foi por meio de uma conversa assim que consegui implantar o pensamento perante o empréstimo e a irmã de coleira.
Numa conversa franca pode-se demonstrar o que pensamos.
Por causa de meu silêncio, erro muito grave na submissão, a técnica de ter tempo pré-determinado, que para mim mexe com feridas emocionais muito profundas, foi um dos grandes vilões do meu mau desempenho.
Jamais se esconde algo de seu DOMINANTE, é uma regra importantíssima de quem se submete é preciso dar as armas para que o DOMINANTE possa interagir contigo, se não explica, não tem como saber a não ser vivenciando, mas isso pode causar um desgaste fatal.
Existem diversas analises a serem feitas, e claro este é meu ponto de vista, busco a plenitude de meu SER, este é meu objetivo, e para isso necessito junto à minha essência de submissão o MEU VERDADEIRO DONO E SENHOR.
De uma coisa eu nunca tive dúvida: VI NOS OLHOS DO COMANDANTE, O VERDADEIRO DONO E SENHOR de mim.