sexta-feira, 2 de março de 2012

Mulher Adormecida

Cada um de nós sabe exatamente o que busca.

Às vezes, a busca pode não estar diretamente declarada dentro de si, assim como não estava dentro de mim, pode não estar tão clara, mas ela sempre existiu.

Há cinco anos, estudo BDSM, e sei muito bem que sou uma mera criança neste departamento, mesmo porque minhas relações e ações ainda são de cunho emotivo, mesmo porque uma de minhas características mais forte é a minha linha emocional.

Claro que cada um de nós tem uma característica que se destaca mais ou menos, mas aprendemos a nos adaptar ao mundo em que vivemos, é nosso instinto de sobrevivência.

Já me disseram que sou clara demais, que eu abro todas minhas reservas que eu não me protejo, e isso para mim nada mais é do que sempre deixar claro aquilo que sinto. Também, já ouvi dizer que sou ética demais, e se depender de mim sempre continuará sendo.

Aprendi a ser eu mesma, pois tenho que ser plenamente fiel e leal comigo mesma, e olhe que já pisei na bola feio, afinal de contas tenho ciência que não posso ser perfeita todo o tempo.

Uma coisa que faz eu me decepcionar com as pessoas é elas simplesmente não me enxerguem, uma vez que me mostro por inteiro, ou que vejam em mim defeitos que não tenho, consigo receber criticas com maestria e muitas vezes tento reposicionar-me, porém, sempre tive muito medo de ser acusada injustamente por algo que eu não tenha feito ou pensado, por isso sempre falei o que pensava e mostrava claramente quem sou, para mim não existe coisa mais triste do que ser acusado de algo que não fez.

As pessoas têm que aprender a confiar, confiança é à base de qualquer relacionamento, sendo entre baunilhas e muito mais potencializados àqueles que vivem um relacionamento BDSM, conhecer quem está próximo, se estiver ou permitir estar próximo é claro, dando-lhes ao benefício da dúvida.

Mesmo eu sendo sincera, verdadeira, clara, honesta, leal, fiel, errei em alguns momentos em escolher as melhores atitudes para demonstrar as minhas qualidades mais específicas e como resultado acabei passando em alguns momentos uma má imagem de minha personalidade, nunca fui boa em propaganda própria.

Hoje eu entendo que não só eu tenho que trabalhar para ser clara o tempo todo, eu tenho que estar diante de quem deseja a aproximação, de quem acredite no que vê e, que deseje o que vê. Diante deste quadro, existem duas pessoas se relacionando, ambas precisam medir suas ações o tempo todo, e se uma não responda como a outra deseja isso não quer dizer que a outra tenha um desvio de caráter, talvez seja apenas ponto de conflito entre culturas diferentes.

Eu tenho sonhos, desejos, fetiches, vontades que estão escondidas dentro de mim deste muito cedo, vontades que sempre existiram desde que eu descobri minha sexualidade.

A grande diferença é que quando se está num grupo diferente daquilo que você deseja, simplesmente você esconde todos eles, esconde até mesmo de você.

E, foi assim que o BDSM apareceu em minha vida.

Num momento, estava sentindo-me um peixe fora d’agua por gostar de coisas diferentes, por excitar-me quando lia romance cujos personagens tinham uma vida atípica, eu gostava dos “mocinhos” malvados, aqueles que eram chefes de bando, que se posicionavam como Dominadores, líderes cruéis e impiedosos, mas que apesar de toda sua rigidez, cuidavam e protegiam quando admirava e recompensava quem os amasse do jeito que eram, e por ai vai.

Quando li, “A caricia do Vento” meu primeiro romance da adolescência surpreendi-me com os sonhos que tinha naquele tempo, assustei-me, mais tarde com “A casa dos budas ditosos”, excitei-me com varias passagens daquele livro, onde a vida sexual de uma mulher é relatada de forma clara, era como se em alguns momentos eu me reconhecesse, e mais, admirei a coragem do personagem.

Deliciei-me quando vi o filme “Delta de Vênus”, sentia-me como a escritora, que conseguia colocar todos os seus desejos para fora quando ela escrevia seus contos, e suas inspirações vinham a cada encontro que tinha com seu amante, um Homem que a fez enxergar sua feminilidade.

Agora o que mais marcou a historia de minha feminilidade foi o filme “A secretária”, via naquela personagem o estereótipo que pudesse explicar-me ao longo de algumas fases que passei, e foi neste momento que conheci o BDSM, até hoje, acredito que a cena final, onde ela alimenta o sadismo de seu Homem na espera de servi-lo e senti-lo com ela.

Depois disso, a literatura BDSM, passou a ser incorporada em minhas leituras: Masoch, Anais Nin são os autores que mais li, mas, também “Historia de O”, “O juiz do SM” foram filmes acoplados em meus estudos.

Inúmeras mulheres, assim como eu, tiveram sua sexualidade reprimida por anos, algumas delas ainda não conseguiram se libertar, e tantas outras passaram pelas suas vidas presas a tabus e preconceitos.

Sinto-me vitoriosa em alguns aspectos, segui os caminhos que eu escolhi, sou corajosa e guerreira, eu descobri coisas que achava que só vivenciaria lendo em contos e livros, lutei com armas justas sem nunca ter pensado em passar por cima de ninguém, nem ter desejado a vida de alguém, eu faço a minha história.

Quando me encontrei com o BDSM dei vida e razão as minhas fantasias, aprendi a não ter medo de meus desejos, e fui conduzida perfeitamente a conhecer-me a quebrar alguns de meus tabus e medos.

Descobri que não adianta somente amar, hoje sei que um bom relacionamento é feio de conquista e de uma conquista vivida diariamente, é levantar todos os dias com a vontade de se fazer notada e de notar todos os desejos de seu companheiro.

Errei em muitos pontos, acertei em tantos outros, mas a confiança é algo que não pode ser transgredida.

Confiar é doar-se e se fazer confiável.

É fazer com que seu parceiro se sinta seguro ao seu lado, é construir elos e relações fortificando-os a cada momento, é um composto de atitudes, ações, falas e representações.

Mudaria algumas coisas do passado, reviveria tantas outras na íntegra, reivindicaria várias posturas que me permiti, erroneamente, tomarem diante de mim, e assim por diante.

Meu mundo é plástico, eu gosto de moldá-lo a cada nova informação, às vezes permanecendo com os pontos anteriores simplesmente agregando e transformando.

Nunca julgue quando tiver dúvida num dos fatos observados, tente sempre acrescentar mais, investigar mais, agregar mais.

Minhas vontades sempre existiram, e sempre existirão, e não me importa se minhas vontades um dia serão ou já foram vontades de outro alguém, o que me importa é o meu sentir, o meu vivenciar.

Havia técnicas do BDSM que eu disse um dia: “Credo!Isso eu não faço!”, hoje ajoelho-me (coisa que disse que não faria um dia) implorando por algo que um dia desconjurei.

Coisas da vida da gente.

Surpreendo-me com meus desejos, mas surpreendo-me muito mais com o que posso fazer pelo desejo daquele que esteja comigo.

Algumas coisas muito importantes eu aprendi sobre mim, eu sou uma mulher que se entrega, e se entrega por amor, se eu me ajoelhar será porque eu quero, e não porque eu vi ou me mandaram fazer, se eu me entrego, é porque vejo na entrega uma forma de exteriorizar o que sinto, se eu obedeço é porque sinto prazer em obedecer aquele que me conduz.

Quando sou de alguém, sou por inteira, não me peça apenas uma parte e não me ofereça migalhas, pois, mais cedo ou mais tarde precisaremos de mais.
Sim, precisaremos é a palavra certa, pois, não só eu precisarei de mais, a minha entrega será maior porque estarei sendo conduzida a prazeres maiores de quem me tem, então, nós precisaremos de mais.

Quem me conduz sabe fazer-se completo, também tem a coragem de me colocar em meu lugar que seria aos seus pés. E, quando me curvo, ele saberá que não é uma cena apenas, e sim uma condição de existência do meu ser para o seu ser.

Servir, por amor, companheirismo, cumplicidade, parceria, lealdade, fidelidade, confiança, respeito e admiração, é meu único intuito.

Não consigo pensar em sessões avulsas, não consigo me posicionar em situações passageiras, pois o meu prazer está diretamente vinculado em até onde posso ir e qual caminho alcançar agora, então, minha servidão é por si só galgada a uma conquista diária.

Surpresas, afeto, carinho, apreço combinados com tesão, vontades, libertinagem, sacanagem, e tantos outros fatores fazem a dicotomia que desejo viver.

Viver intensamente oito e oitenta, oitenta e oitocentos, oitocentos e oito mil, etc.. Sempre levada por amor e elevada por entrega.


(Felicidades a todos nós. Sophie_vie)

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