Enquanto arrumava minhas coisas, despedia-me de cada detalhe.
Havia sido decretado o fim do ciclo que havia me mostrado a minha verdadeira essência.
Usei tudo o que podia.
Chorei e implorei por sua presença, até esqueci que não devemos implorar que alguém fique ao nosso lado. Fica quem quer e ou quem deseja, quem assim escolhe.
Eu perdi... Mesmo tendo comigo a promessa que nada faria eu perde-lo... Eu O perdi.
Não fui a escolhida e sempre soube disso desde o principio.
Peguei minha mala, a nossa mala, eu não tive coragem de abri-la desde aquele fatídico dia, abri sobre a cama, cada coisa tinha seu lugar, as cordas, as velas, os prendedores, os fios de ferro e máquina, a régua de acrílico, o chicote, as varinhas de marmelo, o kit farmacêutico, o kit de segurança (camisinhas, luvas, cremes,etc...).
Dentro daquela mala, eu carregava para onde quer que fossemos um pouquinho de nós. Ali era representado a “nossa história”, quando dei a copia da chave do cadeado de nossa mala a ELE foi como se eu tivesse dado a chave de mim.
Sempre fui muito simbólica.
Hoje, olhando aquelas coisas sobre a cama, dei-me conta que nossa história estava ali, somente ali, eu, ELE e a mala, nossa história era composta por dois personagens, que carregavam seu cenário dentro daquela mala.
Hoje, tive vontade de fotografar item a item, e eternizar montando uma foto única sobreposta como “Arnica” de Pablo Picasso.
E, enquanto olhava para aquelas coisas sobre a cama, coisas que ali, naquele instante não mais tinham o valor que havia enquanto éramos nós.
Orgulhava-me ter aquela mala. Orgulhava-me ser a guardiã de nossas coisas. Orgulhava-me deixar tudo sempre pronto para seu chamado.
E, em meio àquela despedida melancólica, eu me deparei com o que eu não podia ver naquele instante, algo que escondia desde o dia que eu me dei conta do quanto eu necessitava da presença DELE em minha vida.
MINHA COLEIRA.
Quando eu a peguei na mão, mal conseguia vê-la de tanto que eu chorava, as lágrimas saiam incansavelmente, eu queria controlar aquela emoção, aquela dor, mas, como já disse inúmeras vezes, emoções são para serem vividas e não somos capazes de controla-las, mera ilusão daqueles que acham que as controlam, pois se assim o fazem, não as têm.
Eu beijei minha coleira, como beijava sua mão a cada encontro, seja lá onde estivéssemos.
Eu chorei de dor, de desespero, chorei o choro da viúva, chorei de raiva por ter deixado que todos meus muros fossem derrubados, e agora, estava ali, indefesa, sozinha e chorando sem reservas.
Beijava minha coleira como se eu pudesse tirar dela o gosto DELE.
Beijava minha coleira como se ela pudesse ser um amuleto mágico e pudesse trazê-lo de volta.
Beijava minha coleira para me despedir.
Despedia-me ali, sozinha, pois, nem a chance de despedir-me foi me dado, foi negado o último olhar, o último toque e o último beijo, como me dói ter recebido seu decreto de forma evasiva e fria, um email no meio de tantos outros, num telefonema no meio de um momento tão estressante.
Nada era para sair assim, tudo havia sido planejado, nosso contrato tinha tempo, eu estava ciente de minhas obrigações e meus deveres, eu estava avisada de todas as cláusulas, eu estava consciente de onde poderia ir, e o mais importante, eu sabia que não era a mim que seria sua companheira desde o principio, desde nosso primeiro encontro, sempre, sempre tudo foi muito bem dito.
Eu só não pude controlar o AMOR que eu sinto, eu não soube lidar com um contrato, cláusulas e o desejo que crescia incansavelmente de querer estar com ELE, mais do que ele poderia.
Tudo o que eu queria era um beijo.
Hoje, com as coisas sobre a cama, beijando a coleira que tenho tanto orgulho em dizer que foi minha, mesmo ela não tendo o que eu mais deseja que era ter seu nome cravado nela, eu chorei de dor.
Levantei-me.
Lavei meu rosto.
Escolhi meu vestido e meu lingerie.
Coloquei as coisas dentro da mala, tranquei e tirei de meu campo de visão.
Deixei sobre a cama, apenas a roupa que eu escolhi e minha coleira.
Delicadamente maquiei-me, perfumei-me, vesti-me, fiz um belo penteado, nos cabelos que estão longos como ELE sempre gostou e agora mais escuros, tirei o vermelho que ELE havia sugerido, e eu havia feito para agradá-lo, ELE nem chegou a ver.
Naquele momento, estava realizando sua última ordem: CONTINUE SUA VIDA, QUE CONTINUAREI A MINHA.
Enquanto eu me entregava a outro homem, eu olhava para minha bolsa, lá dentro estava minha coleira, olhava e meu desespero era tamanho que faltou muito pouco para eu desistir e ir embora.
Mas, eu consegui obedecer esta ordem.
O sexo, não tinha gosto, e o pouco gosto que eu sentia era de minhas lágrimas que insistiam em cair.
Gozei, um gozo físico, sem carinho, sem sentimento, um gozo que molha os lençóis, mas seca a alma, gozei por gozar.
Levantei-me dali, arrumei-me novamente, e fui para casa.
Naquela cama, eu deixei meu brilho, eu deixei minha inocência, eu deixei meu romantismo, eu deixei ali, o que eu acreditava que fazia parte de mim, eu deixei ali, numa despedida seca, dura.
Naquela cama eu deixei meus sonhos e minhas carências, naquela cama, eu deixei o que eu acreditava ser o diferencial para ser feliz.
Naquela cama, eu deixei de ser eu, para ser mais um alguém na multidão.
Vai passar, sim, vai passar.
Mas, nunca mais serei eu...
Nunca mais colocarei minha vulnerabilidade em jogo, meus muros, agora reerguidos serão com a dureza de uma muralha e a resistência do melhor aço.
Nem sei se um dia encontrarei alguém que consiga ultrapassá-los, nem sei se terei tempo para isso.
Naquela cama, ontem à tarde, deixei representado ali, a última ordem a cumprir e, ao mesmo tempo, retomava minha vida desobedecendo à única ordem inegociável de nosso contrato.
Foram maravilhosos estes dois anos, uma história que eu viveria em tantas outras encarnações mesmo que eu soubesse a dor que sentiria no final, eu viveria.
Talvez seja porque sou “uma masoca, das bravas”.
Sophie Anais Nin
(escrito no dia 14/04/2012 01:15)
Nenhum comentário:
Postar um comentário